Inseminação artificial de gado bovino leiteiro

Autor: Rodrigo Garziera 

1. INTRODUÇÃO 

Inseminação artificial é uma prática que consiste na introdução de sêmen no útero da vaca, feito pelo homem. 

Visando a melhor produção leiteira, os produtores pecuaristas estão cada vez mais aplicando fortunas pra terem melhores animais e com maior produção de leite/dia, tendo como objetivo, a obtenção de maiores lucros. 

Com o declínio da agricultura, a maioria dos pecuarista e agricultores estão recorrendo ao leite, pois é uma fonte de renda diária. Muitos desses (em torno de 60.000), pequenos produtores, estão usando desse recurso para a própria subsistência. 

Mas a maioria desses animais não apresentam o mínimo de qualidade genética, tendo como produção 7 l/dia. Esse dado é considerado extremamente baixo, e, para melhorá-lo há necessidade de boas inseminações, que muitas vezes, são consideradas caras. Ao fazer uma inseminação artificial, pode-se escolher a raça do touro, sendo que esse pode corrigir os defeitos da fêmeas, nascendo assim uma terneira com boas formas estáticas, boa produção de leite e principalmente, com uma raça bem definida. 

Esse trabalho visa os favores da inseminação artificial, sendo que no primeiro capítulo discute-se as vantagens econômicas, sanitárias e sociais. Já no segundo capítulo trata-se da apresentação do próprio inseminador. No terceiro, a composição do aparelho genital de uma vaca. No quarto capítulo, visa-se os métodos de melhor eficiência de inseminação. O quinto capítulo implica no reconhecimento do cio e o horário de inseminar. O sexto e o sétimo capítulo abrange a apresentação do sêmen, como armazenar e descongelar o mesmo, e a sua disposição no aparelho genital. E por último, o oitavo capítulo apresentará o modo de limpeza do material utilizado na inseminação. 



2. CONHEÇA A MELHOR FORMA DE QUALIFICAR O REBANHO 

A inseminação artificial é um método de reprodução normal, e, por isto mesmo, o termo "artificial" talvez não seja dos mais apropriados, uma vez que o material fecundado (sêmen) é natural, provindo de reprodutores masculinos. Somente a sua deposição nos órgãos genitais femininos é que é feita com a participação do homem e de instrumentos. Inseminação artificial é "um método de reprodução que consiste na deposição do sêmen através de instrumental próprio, nas proporções mais adequadas no aparelho genital feminino". 

Após anos de análises, Adyr Soares Becker conclui que se a inseminação artificial for precedida de critérios rigorosos, principalmente escolha de reprodutor e higiene do manjo, poupa tempo e dinheiro em melhoramento genético. 

2.1 Vantagens Zootécnicas 

A inseminação artificial é um meio que tem como fim o melhoramento zootécnico dos rebanhos. Através dela, consegue-se uniformizar os rebanhos a partir de um único pai. 

Permite organizar-se extremos programas de cruzamento; usar o sêmen de uma só ejaculada para centenas de vacas, aproveitando melhor a energia genética dos reprodutores; encurtar a estação de reprodução, conseguindo-se períodos de nascimento e desmama bem definidos com a terneira mais uniforme; melhorar o rendimento (carne, leite, lã, etc.). "a congelação de embriões (crioconservação) tem, além do significado científico, grande importância econômica e zootécnica" (Rodrigues, 1991, p 26), além de que , um reprodutor continue reproduzindo mesmo depois de morto. Além disso, um programa de inseminação artificial, no gado de corte, recomenda a adoção de determinadas técnicas de manejo, fazendo com que a reprodução mereça maior atenção, dentro de uma fazenda. O próprio sistema de identificação individual, através de brincos e fichários, facilita o controle, permitindo identificar e eliminar os animais com problema de reprodução. 

2.2 Vantagens Econômicas 

Entre outras, a possibilidade de pequenos e grandes criadores disparem de reprodutores de alto valor zootécnico, por preços bastante acessíveis. Além disso elimina-se os gastos de manutenção de touros (alimentação, tratador, medicamentos, etc.) e evita-se riscos de prejuízos por morte ou doenças. Também a ausência de touros permite, ao fazendeiro, aumentar a concentração de vacas. 

Diante da situação evolutiva de todos os ramos comerciais e culturais, Mauro S. Ribeiro (1992), afirma que a utilização de técnicas na área rural faz-se na medida em que o homem evolui culturalmente. Portanto, não pode-se esperar objetivos amplos e abrangentes de uma população rural com escassos acessos ao que denomina-se vida moderna. Ainda faltam várias etapas para que se possa utilizar as biotécnicas de reprodução animal de forma correta, econômica, objetiva e geradora de benefícios ao homem rural. Devido a técnica de congelamento de sêmen, o criador pode usar sêmen de touros estrangeiros, sem se preocupar com o preço ou importação bastante acessível, tenso, como ônus, apenas a dose do material fecundado. "Proprietários de reprodutores de alto valor zootécnico podem congelar e comercializar o sêmen de seus reprodutores, obtendo, com isso, bons lucros, bastando, para tal, cumprir as exigências legais" (Becker, 1985, p 20) 

Já está provado que o índice de fecundação, através de inseminação artificial, é bem superior ao da monta natural e, com isto, representa um menor custo de produção. Para comprovar-se, basta apenas fazer os cálculos do índice de produção de um terneiro, produzido através de inseminação artificial, e de outro, produzido através de monta natural, levando-se em conta o índice de fecundação, o preço de sêmen, o preço de touros (compra r manutenção), percentagem de nascimento, etc. 

2.3 Vantagens Sanitárias 

Existe, nos animais, a exemplo com o que acontece com a espécie humana, a ocorrência de doenças venéreas, de transmissão exclusiva pela cópula. São chamadas doenças de reprodução. Na monta natural, a presença de apenas uma vaca ou touro contaminado representa um perigo muito grande, devido a grande facilidade de disseminação de doenças. 

Nos programas de inseminação artificial, são usados touros comprovadamente livres de tais doenças, e, mesmo que exista num rebanho uma vaca doente, não há perigo de transmissão paras as outras, pois o material de aplicação de sêmen é individual. A inseminação artificial age como um meio profilático, no rebanho, por não existir o contato direto macho x fêmea. 

2.4 Vantagens Sociais 

O trabalhador rural, ao concluir um curso de inseminação artificial, é valorizado profissionalmente, obtendo, assim, um mercado de trabalho mais amplo e melhores oportunidades salariais. Além disso, a participação no curso lhe dá a oportunidade de conviver com elementos de zonas diferentes e ter uma maior aproximação com os técnicos. 


3. LIMITAÇÕES DA IA 

Assim como se pode disseminar as boas características de um reprodutor, pode-se multiplicar características indesejáveis se o reprodutor escolhido possuir defeitos zootécnicos. A questão da higiene do inseminador também é um risco, pois diversas doenças podem ser por ele transportadas (aftosa, brucelose, mamite, tuberculose) . Os órgãos genitais dos animais são muito sensíveis, e se os instrumentos empregados na inseminação estiverem contaminados, o inseminador provocará infecções que podem resultar em abortos, ou mesmo mortes. 



4. APARELHO GENITAL DA VACA 

O aparelho reprodutor feminino é composto dos seguintes órgãos: ovários, trompas ou ovidutos, útero, vagina e vulva. 

Ovários – São duas glândulas localizadas no interior do abdome, que podem variar um pouco em cada espécie animal e também com o estado de prenhez. Possuem a forma ovóide, ligeiramente achatados e medem, em média, 4 x 2, 5 cm. Os ovários produzem os óvulos e hormônios: estrogênio, progesterona e relaxina. 

Trompas – Também chamadas de ovidutos, são condutos que unem os ovários aos cornos uterinos, e é o local onde ocorre a fecundação ( encontro do espermatozóide com o óvulo) medem de 15 a 30 cm. 



Útero – É um órgão oco, de paredes musculosas e apresenta as seguintes partes: cornos uterinos, corpo do útero e colo do útero. Os cornos uterinos são em número de dois: o direito e o esquerdo e é onde se desenvolve o feto, durante a gestação. O corpo do útero é um cilindro oco, achatado, que se comunica, pela frente, com ambos os cornos e posteriormente com o colo uterino. O colo uterino é a porção mais posterior do útero. Possui as paredes espessas, no seu interior, existe o canal cervical que põe o útero em comunicação com a vagina. O canal cervical possui uma porção de anéis (2 a 4), que são bastante desenvolvidos em vacas que já tiveram muitas crias. A identificação deste órgão é de grande importância para o inseminador, pois o final do canal é onde deverá ser depositado o sêmen, sendo, por isso mesmo, chamado de "alvo do inseminador". O colo uterino mede mais ou menos 10cm de comprimento, e tanto a sua consistência quanto o seu tamanho variam de acordo com a idade do animal (nas novilhas ele é fino e mole). Varia também com raça. 

Vagina – É um órgão tubular, que vai do útero até próximo ao meato urinário. Mede de 25 a 30 cm. 

Vulva – É a porção externa do parelho genital feminino. Possui a forma de uma fenda vertical ou oblíqua. É composta das seguintes partes: dois lábios vulvares, duas comissuras, um clitóris e os vestítulo. 



5. TÉCNICAS DE INSEMINAÇÃO ARTIFICIAL 

Existem diversos métodos conhecidos, muitos dos quais já fora de uso: inseminação vaginal – consiste na deposição do sêmen no interior da cavidade vaginal. Inseminação uterina – deposição no colo uterino. Inseminação intraperitonial – deposição do sêmen no ovário (método usado em aves). Inseminação cervical – consiste na deposição do sêmen no final do canal cervical (exatamente onde termina o colo uterino e inicia o corpo do útero). Esta técnica é, atualmente, a mais usada por apresentar um índice de fecundação superior aos demais. Uma grande vantagem desta técnica é a de eliminar o prejudicial contato do sêmen com a vagina, que pode causar retornos. 

4.1 Preparo para a inseminação 

A inseminação artificial, por ser um método de reprodução que conta com a participação do homem e de instrumentos, está sujeita a erros por desatenção ou falta de esclarecimento. Em todas as fases, devem ser observados os mínimos detalhes, pois apenas um pequeno descuido pode ser fatal. O preparo das vacas deve ser criterioso, levando-se em conta o seguinte: 

Os animais deverão ser preparados com bastante antecedência; 
Após reunidos em um mangueira, deverão ser classificados pelo tipo zootécnico e pela idade, devendo ser descartados os velhos e os que reunam condições de promover o melhoramento do rebanho; 
O diagnóstico de gestação também deve ser feito; 
A tarefa seguinte é a colocação de brincos; 
A seguir, faz-se a aplicação de tuberculina e coleta de sangue para o exame de brucelose, eliminando-se da reprodução os que reagirem positivamente para ambos os testes; 
Nos restantes, ou seja, os que forem considerados aptos, aconselha-se fazer uma aplicação de ADE e colocá-los em um potreiro com bastante pasto. 
Sal mineral e farinha de osso devem ficar à disposição dos animais, permanentemente, e em quantidades que satisfaçam às exigências. 

6. CIO 

O ciclo sexual é composto de quatro períodos: proestro, estro, metaestro e diaestro. O período de estro é o cio propriamente dito. O cio, na maioria das espécies, é o melhor momento para fecundação, porque nele ocorre a ovulação. 

" O sincronizador de cio, controla o ciclo estral, para saber de forma exata qual é o momento de começar o tratamento com hormônios, pra que ocorra a superovulação. Como a natureza animal produz normalmente um óvulo, que corresponderia a um filho, é necessário provocar a ocorrência de vários óvulos em um mesmo cio". (Becker, 1985, p 26) 

A vaca é exceção. Nela, a ovulação ocorre num período de mais ou menos 12 horas após o final do cio, que dura, em média, 18 horas, e se repete a cada 21 dias. Na monta natural, o touro possui instintos que permite reconhecer uma vaca em cio. Em inseminação artificial, o inseminador tem um papel semelhante ao touro para o reconhecimento do cio. Um mau reconhecimento do cio pode levar um trabalho de inseminação a um fracasso total, ocasionando, ao criador, grandes prejuízos (valor do sêmen, material de aplicação, pequena quantidade de terneiros nascidos noa no seguinte, etc.) 


6.1 Reconhecimento do cio 

O reconhecimento do cio pé de capital importância, pois não basta que uma vaca esteja em cio para ser inseminada. Existe, dentro do período de cio, um momento que é o mais apropriado para a inseminação. Quando uma vaca entra em cio, apresenta uma série de modificações, tanto no seu comportamento, como no aspecto de seus órgãos genitais. 

Mudanças no comportamento: inquietação, perda do apetite, monta e deixa-se montar; quando se toca nos órgãos genitais, levanta a cauda; pode emitir sons freqüentes. Outras mudanças: vulva inchada e avermelhada, corrimento de muco, que pode ser abundante em alguns animais e escasso em outros. Este muco deverá ser limpo, sem estrias de sangue ou pus. Na vaca leiteira, pode haver uma queda na produção de leite. 

A presença de sangue na vulva, ancas ou cauda é sinal indicativo que o cio já passou. Vaca não menstrua. Este sangue indica que a vaca esteve no cio há três ou quatro dias. 

Nos animais estabulados, ou semiestabulados, não há dificuldades em se fazer a identificação do cio. Devido ao contato diário do tratador com o animal, basta apenas a observação individual de cada um. Então, só serão observados os sinais de vulva, perda do apetite, diminuição do leite. Para os animais de campo, geralmente rebanhos com muitos animais, existe um esquema que facilita muito o trabalho, já que é impraticável a observação direta e individual. 

O inseminador, acompanhado de dois ou três campeiros, deverá fazer duas recorridas diárias ao rebanho, para identificar apartar as vacas em cio. A primeira pela manhã, das seis às nove horas e, a segunda, das 16h 30 min às 18h 30 min. O sinal que indicará o animal em cio, no campo, é o "deixar-se montar" por outro animal. Este outro animal pode ser uma vaca, um rufião previamente preparado, ou até mesmo um boi manso. Normalmente, a vaca que entra em cio fica inquieta, não pasta e se aproxima de uma companheira, tentando montá-la. Se esta outra não está no cio, ela não aceita a monta, ma, num determinado momento, ela salta sobre a que está em cio, que aceita, tomando as atitudes como se fosse receber a monta de um touro. 

Há outro meio de reconhecer animais em cio. Existem dispositivos que são adaptados na garupa das fêmeas. Ao receber a monta, estes dispositivos são comprimidos e mudam de cor, passando do branco para o vermelho. Outro método é o de usar espingardas que lançam cápsulas que, ao contato com o animal, rebentam e derramam uma tinta, marcando. 

Ao final de cada período de inseminação o inseminador deverá separar as vacas em cio e colocá-las num potreiro de espera, próximo ao tronco de inseminação. Caso o inseminador e campeiros tenham que separar somente um animal, tarefa esta muito difícil, que provoca muito movimento no gado, em geral, aconselha-se a usar duas ou três vacas mansas que irão servir de sinuelo. isto facilita o trabalho de aparte evitando aquela intensa movimentação, muito prejudicial as vacas que irão ser inseminadas. 

Os animais deverão ser conduzidos com calma, sem gritos ou correrias. Em fim, devem ser evitadas quaisquer situações que poderão deixar os animais inquietos. A presença de cachorro é altamente prejudicial ao bom andamento do trabalhos. 

A vaca que vai ser inseminada deverá ser contida, de modo que ofereça segurança tanto para ela quanto pra o inseminador. Se ela estiver se negando a entrar no brete, aconselha-se a meter, na sua frente, uma vaca mansa, de modo que quando ela estiver presa veja a que está a sua frente. Caso o tronco de contenção não possua tesoura, aconselha-se a não prender a cabeça do animal com corda, pois deixa-o inquieto. 

6.2 Horário de Inseminar 

A finalidade da inseminação é promover o encontro do espermatozóide com o óvulo, objetivando a fecundação. Por isso, ela deve ser realizada no momento apropriado, para que se dê realmente o encontro. Sabe-se que a vaca ovula mais ou menos doze horas após o término do cio; que o óvulo dura, aproximadamente 6 horas e que o espermatozóide dura 24 horas. Está comprovado que o melhor momento para inseminar uma vaca é nas última dez horas do período de receptividade e nas 10 primeiras após o término do cio. Porém, como não se pode precisar o início do período de receptividade, adota-se a seguinte regra prática: 

As vacas identificadas em cio, pela manhã, serão inseminadas na tarde do mesmo dia; 
As vacas identificadas em cio pela tarde serão inseminadas na manhã seguinte. 
As vacas de leite devem ser inseminadas antes da ordenha. Sempre que houver necessidade de banhos carrapaticidas ou vacinas deve se evitar faze-los no mesmo dia da inseminação. Também todos os trabalhos preparativos (colocação de brincos, teste de brucelose e tuberculose) deverão ser feitos com bastante antecedência. 



7. APRESENTAÇÃO DO SÊMEN 

O sêmen após coletado, é especialmente preparado para ser congelado. Os métodos de congelamento são quase perfeitos e os espermatozóides não são prejudicado. Após congelado, o sêmen é armazenado a uma temperatura de –196°C. A apresentação do sêmen congelado é maneira como ele está acondicionado. Existem atualmente, quatro formas: pellets, palhetas, ampola e minitubo. 

Pellets: é o sêmen, não possuindo embalagem. Este tipo está sendo substituído por outros três tipos, que serão vistos a seguir. A vantagem que apresenta é o baixo custo de produção e simplicidade no método de congelamento, que pode ser feito até mesmo nas fazendas. Apresenta as seguintes desvantagens: não possui embalagem, o que dificulta a identificação e facilita a contaminação; dificulta acondicionamento, pois, para uma pequena quantidade de sêmen é necessário um canister inteiro para guardá-lo; necessita de esterilização de tubos de hemólise e outros instrumentos, prática esta muito difícil de se conseguir com perfeição; nas fazendas, necessita-se de diluidor. Sua aplicação é feita com pipeta e bulbos plásticos. 

Ampolas: como o próprio nome diz, vêm acondicionado em ampolas, cujos dados de touro e sêmen vêm impressos na própria ampola. Também é aplicado com pipeta e bulbos plásticos. 

Palhetas: O sêmen em palhetas é o que vêm acondicionado em canudinhos plásticos, semelhante a um carga de caneta esferográfica. A palheta também contém impressos os dados do sêmen. Sua aplicação é feita com pistola metálica, protegida com uma bainha plástica. É o melhor método. Não há perigo de contaminação. O sêmen sai da palheta diretamente para o útero da vaca. A sua grande vantagem é a cor da palheta, identificando a raça. 

7.1 Armazenamento do sêmen 

Todo o sêmen congelado, seja ele em palhetas, pellets, ou ampolas, deverá ser armazenado em recipientes especiais, denominados botijões. Estes botijões deverão conter nitrogênio líquido, cuja temperatura normal é de –196° C. Estes aparelhos são construídos com material especial, possuem parede dupla e entre elas, existe vácuo e um material isolante térmico. Qualquer batida poderá quebrar o equilíbrio entre a s duas paredes do aparelho. 

7.2 Descongelação de ampolas 

Coloque água e pedras de gelo num recipiente de isopor, aguardando alguns minutos pra a água ficar numa temperatura em torno de zero graus centígrados. 

Retire a ampola da haste e coloque rapidamente dentro d’água. Em seguida formará uma crosta de gelo em torno da ampola, que deverá ser removida com as unhas sem retirar a ampola da água. 

Em aproximadamente cinco minutos a ampola estará descongelada; retire-a da água e seque com papel toalha. 

Com um cortador de ampolas, arranha o gargalo da ampola após quebre-o . a seguir com a pipeta e o bulbo aspire o sêmen contido na ampola e imediatamente inicie a inseminação. 



8. DEPOSIÇÃO DO SÊMEN NO APARELHO GENITAL 

Na execução da inseminação artificial deve ser obedecida a seguinte ordem: 

Introduza a mão no reto e localize o colo do útero; agarre-o firme, mas em apertar com muita força. 
O auxiliar limpa a vulva com papel toalha. 
Com o auxiliar abrindo os lábios vulvares, introduza na vagina a pipeta ou o pistolete com a ponta anterior levemente dirigida para cima. 
Distenda o colo para frente (em direção a cabeça da vaca) para desmanchar as pregas vaginais, bem como o fundo do saco vaginal. 
Sempre distendendo o colo para frente, vá introduzindo a pipeta ou o pistolete procurando localizar sua ponta anterior na abertura do colo. 
Faça pressão com a pipeta ou o pistolete para a frente enquanto traz o colo para trás com leves movimentos para facilitar e entrada da pipeta no canal do colo. 
A seguir, ultrapasse os anéis do colo, exercendo uma pressão constante, para frente, da pipeta enquanto traciona o colo para trás com leves movimento rotativos. 
A seguir puxe um pouco para trás a pipeta, pois o local de deposição do sêmen situa-se no final do colo. 


9. LIMPEZA DO MATERIAL 

Os tubos de hemólise devem ser lavados com água corrente após o término de cada inseminação. 

Quando tiver diversos tubos já usados, lavar novamente com água corrente e sabão de coco ou glicerina. Enxaguar com água limpa em abundância (se tiver água destilada, melhor). Usar escovas próprias para lavar os tubos. 

Enrolar cada tubo, individualmente em papel toalha, levar ao forno ou estufa e deixar secar até que o papel toalha fique bem quebradiço (no mínimo 20 minutos). 

Jamais use duas vezes um mesmo tubo sem lavar e esterilizar. 



10. CONCLUSÃO 

Com a apresentação deste trabalho, pode-se concluir que a inseminação artificial apresenta somente vantagens como, evitar doenças, maior proporção de fecundação, qualidade em raça e muitas outras. 

Todas essas vantagens englobam em um complexo que, só tende a lucros para os criadores de médio e alto porte. Já os pequenos não têm acesso à maioria delas, o que faz cair muito a qualidade de mercado. 

As técnicas de inseminação apresentadas devem ser analisadas, pois alguns descuidos do inseminador podem causar prejuízos ao pecuarista. Dentre as técnicas, a introdução do sêmen no útero da vaca, como visto, só tende a trazer vantagens, como eliminar o contato do sêmen com a vagina, podendo causar retornos. 

Com a evolução e o crescimento da criação do gado leiteiro, esse mercado de inseminação tende a aumentar ainda muito; isso só vem a trazer benefícios, como o declínio do preço de inseminações de boa qualidade. 

Conclui-se então, que boas inseminações são serão mais privilégios de poucos, mas sim necessidade de muitos que visam uma cabanha com melhoramento genético e uma alta produção de leite. 



11. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

BARBOSA, Olavo. Investimento em Genética. A Granja, São Paulo, nº 526, p.32-8, jun. 1992. 

BECKER, Adyr Soares. Pesquisas mostram quais os melhores cruzamentos. A Granja, São Paulo, nº449, p.16-23, jun. 1985. 

MEINCKE, Werner. Vantagens e limitações da IA. A Granja, São Paulo, nº456, p.30, dez. 1985. 

RIBEIRO, Mauro Santos. Como se produz leite de primeiro mundo. A Granja, São Paulo, nº 543, p.45-8, jun. 1992. 

RODRIGUES, José Luiz. Conheça a melhor forma de qualificar o rebanho. A Granja, São Paulo, nº 453, p. 20-9, out. 1985. 

MULTIPLICAÇÃO sem milagres nem mistérios. A Granja, São Paulo, nº520, p.22-6, nov. 

1991.

Inseminação artificial em bovinos.



1 - Introdução
A inseminação artificial é um processo pelo qual o esperma coletado do
macho é processado, estocado e artificialmente introduzido no trato
reprodutivo da fêmea para fecundá-la. Tem se tornado uma das mais
importantes técnicas disponíveis para o melhoramento genético dos
animais domésticos.

2 - Vantagens da Inseminação Artificial
-Melhoramento do rebanho em menor tempo e a um custo mais
baixo, com sêmen de reprodutores comprovadamente superiores
para a produção de leite e carne.
-Controle de doenças. Pela monta natural tanto o touro como a vaca
podem transmitir doenças, o que pode ser controlado e mais
facilmente evitado com a prática da inseminação artificial .
-Permite ao criador cruzar suas fêmeas zebuínas com touros deraças européias e vice-versa, por meio da utilização de sêmen desses touros. Sabe-se que em muitas regiões do Brasil os touros
de origem européia dificilmente se adaptar-se-iam às condições de
manejo reprodutivo existentes.
- Touros de alto padrão genético com problemas adquiridos e
impossibilitados de efetuarem a monta natural, em razão de idade
avançada, problemas de aprumos e cascos, fraturas, aderência de
pênis, etc., poderão ser ainda utilizados por meio da inseminação
artificial.
- Aumenta o número de descendentes de um reprodutor. Um touro
cobre a cada ano, a campo, cerca de 30 vacas. Em regime de
monta controlada, pode servir a um máximo de 100 fêmeas, a cada
ano. Isso significa que, considerando ser de 10 anos a vida
reprodutiva de um touro, teremos um total de 300 a 1.000 filhos por
animal, durante sua vida. Com a inseminação artificial um
reprodutor pode ter mais de 100.000 filhos.
- Padronização do rebanho da fazenda pela utilização de um só
reprodutor para grande número de vacas.
- Reduz o risco de dispersão de doenças transmitidas sexualmente.


3 - Fatores condicionantes a implantação da técnica
Os resultados e o sucesso da implantação da técnica da inseminação
artificial vão depender basicamente do manejo adotado na fazenda, da
qualidade do sêmen utilizado e da eficiência do inseminador.
 
3.1 Manejo da Fazenda
É importante que as vacas inseminadas sejam examinadas em tempo
hábil para o diagnóstico de prenhez. Com um minucioso exame das
fêmeas que não apresentam bom desempenho reprodutivo, comunicar ao
técnico os casos de fêmeas paridas com mais de 90 dias sem
manifestação de cios, vacas com cios irregulares, vacas com infecção,
vacas repetidoras de cios, além outras alterações, para as devidas
providências.
Nota : A parceria entre o técnico, o criador , o inseminador e demais
empregados da fazenda é fundamental para o sucesso dessa atividade
através da troca de informações e estabelecimento de normas de manejo,
nutrição e controle sanitário do rebanho.


Alguns cuidados
Pastagens: boas pastagens com subdivisões, suplementação mineral
adequada em cochos cobertos, aguadas de boa qualidade e bem
distribuídas e suplementação na seca (feno, silagem, cana, capim para
corte etc.) asseguram ao rebanho bons níveis de produção de leite, ganho
de peso e fertilidade.
Vacinações : são indispensáveis para evitar o aparecimento de doenças,
assim como o combate aos vermes, carrapatos, moscas, etc.
Separar em lotes : para um bom manejo na fazenda é importante que os
animais sejam separados em lotes de acordo com sua categoria e
condição fisiológica: lote de bezerros desmamados, machos e fêmeas,
novilhas, garrotes, bois, vacas paridas, cheias e vazias, vacas solteiras,
cheias e vazias, vacas amojadas e touros. Identificação: todas as vacas
devem ser identificadas e cada animal deve ter uma ficha onde serão
lançadas todas as ocorrências. Essas fichas são um instrumento de
seleção, pois permitem identificar os animais mais e menos produtivos.


3.2 Manejo do Rebanho
Vacas amojadas: deverão permanecer em piquetes-maternidade até,
aproximadamente, 30 dias após o parto.
Bezerros recém-nascidos: verificar para que mamem o colostro,
preferencialmente, nas primeiras seis horas após o nascimento e proceder
a cura do umbigo.
Secagem das vacas: as vacas leiteiras devem estar secas 60 dias antes
da data prevista do parto.
Novilhas: fornecer boa alimentação às futuras vacas. Somente liberar as
novilhas para a reprodução após atingirem um desenvolvimento adequado
(combinação de peso e idade).
Pós-parto: as vacas devem ficar em repouso para a recuperação pósparto em razão do período final de gestação, parto e início de lactação,
além de aguardar a completa involução uterina. Recomenda-se somente
liberar a vaca para a inseminação artificial após decorridos 45 - 60 dias do
parto.
Desmame: em gado de corte, recomenda-se que seja feito o desmame
entre 7 e 8 meses de idade, quando machos e fêmeas deverão ser
separados. No entanto, a introdução de um programa de suplementação
dos bezerros ao pé da vaca, como o esquema de aleitamento interrompido
ou mesmo a implantação de um programa de desmama precoce, têm
trazido inúmeros benefícios à fertilidade do rebanho.


3.3 Instalações
Embora não chegue a ser fator limitante, é bom lembrar que para o bom
desempenho dos trabalhos de inseminação, algumas instalações básicas
são recomendadas:
- Tronco coberto ou brete;
- Cômodo para os materiais de seminação;
- Pia com água corrente.

O tronco deve ser coberto para proteger da luz solar e das águas de
chuvas, extremamente prejudiciais ao espermatozóides. Uma simples
adaptação nas instalações já existentes, na maioria das fazendas, é
suficiente para dotar a fazenda das condições necessárias.


4 - Procedimentos para a Inseminação Artificial
Na técnica reto-vaginal de inseminação artificial com palhetas, o
inseminador toma o aplicador devidamente recoberto pela bainha estéril
contendo a palheta de sêmen, e o introduz na vaca, conduzindo-o pelo
interior da cérvix até atingir o corpo do útero (local para a deposição do
sêmen). A maior parte do sêmen é aí depositada, sendo que pequena
porção remanescente pode ficar retida na cérvix quando da retirada do
aplicador.
Ocorrência do Cio
O intervalo médio de repetição de cio na vaca é de 21 dias, sendo que as
novilhas têm intervalo menor, enquanto as vacas mais velhas têm intervalo
maior. Assim, considera-se que o ciclo estral nas fêmeas bovinas pode
variar de 17 a 24 dias.
Por definição, cio ou estro é o período em que a fêmea aceita
passivamente a monta. O período que antecede ao cio, é conhecido como
período pré-cio e os sinais manifestados pelos animais são:
- Inquietação, nervosismo;
- Cauda erguida;
- Urina freqüentemente;
- Mugidos freqüentes;
- Vulva inchada e brilhante;
- Liberação de muco cristalino, transparente e semelhante à clara de
ovo;
- Monta as outras fêmeas, mas não aceita monta
O pré-cio dura de 4 a 10 horas. À partir de determinado momento, a fêmea
passa a aceitar a monta, iniciando o cio.
Deve ser observado que no cio o animal apresenta os mesmos sinais do
pré - cio, com a diferença de que no cio o animal monta e também aceita
monta. É importante observar que todos esses sinais vão diminuindo em
freqüência e em intensidade, à medida que se aproxima o final do cio.
Na vaca, o cio dura de 10 até 18 horas, ou seja, a fêmea aceita a monta
por 10 a 18 horas. O final do cio será então caracterizado pelo momento
em que a fêmea não mais aceitar a monta e é o momento ideal para que a
inseminação seja feita.
Reconhecimento do Cio
Recomenda-se de duas a três observações diárias de cio, devendo-se
dedicar-se pelo menos 40 minutos a cada observação. A utilização ou não
de rufiões, com ou sem buçal marcador, o emprego de vacas androgenizadas ou outros auxiliares, bem como os horários de observação
de cio deverão ser orientados por um técnico que assiste a fazenda.


5 - Horário apropriado para a Inseminação Artificial
Dadas as dificuldades de se proceder a inseminação artificial no horário
ideal (final de cio), recomenda-se um esquema prático, proposto por
Trimberger e que há muito vem sendo utilizado com bons resultados:
-Vacas observadas em cio pela manhã (aceitando monta) deverão
ser inseminadas à tarde do mesmo dia.
- Vacas observadas em cio à tarde devem ser inseminadas na manhã
do dia seguinte, logo ao amanhecer.
Obs.: Deve-se salientar que a maioria das fêmeas entra em cio à noite e
de madrugada, sendo observadas em cio pela manhã, o que significa que
a maioria das inseminações serão realizadas à tarde.
A inseminação artificial também pode ser realizada em horário único com
algumas vantagens: é mais prático e de fácil execução; as fêmeas em cio
não ficam presas aguardando a inseminação. Elas são recolhidas ao
curral, inseminadas e imediatamente após devolvidas ao lote, sendo assim
submetidas a níveis menores de estresse.


6 - Qualidade do Sêmen
Os reprodutores devem ser cuidadosamente selecionados. Devem
apresentar testículos completamente normais, produzir sêmen de alta
qualidade e serem livres de doenças.
Devem ser submetidos a exames de saúde periódicos e seguir todos os
códigos de saúde.
Após a coleta, somente o sêmen de alta qualidade deve ser processado e
armazenado. O sêmen pode ser armazenado satisfatoriamente por longo
tempo quando mantido em nitrogênio líquido a 196 º C negativos. A falta
de nitrogênio líquido, mesmo por poucas horas, pode resultar na completa
destruição de um banco de sêmen.
Obs.: O manejo inadequado do sêmen durante a estocagem também
diminui a fertilidade.


7 - O inseminador
Dentro de um programa de inseminação artificial, o inseminador constituise em peça fundamental. De sua dedicação e condição de trabalho vão
depender, em grande parte, os resultados. É preciso que o inseminador
seja treinado em noções básicas sobre o animal e seu manejo, utilização
do sêmen e o manejo adequado dos equipamentos.
Outro aspecto importante e muitas vezes, responsável por insucessos nos
resultados da inseminação, é a higiene durante o processo: higiene
pessoal , com o animal; das instalações e com o material utilizado.












BEM-ESTAR ANIMAL


Os defensores do bem-estar animal acreditam que cada criatura individual tem um valor
intrínseco e deve ser respeitada e protegida. Reconhecem que animais têm necessidades e
instintos biologicamente determinados e são sensíveis à dor e ao sofrimento. Em função
disso, eles crêem que os animais têm o direito de viver livres de sofrimentos que podem ser
evitados, causados por humanos. Devem ter boa qualidade de vida e uma morte tranqüila.
Porém, bem-estar não diz respeito apenas à ausência de crueldade ou de “sofrimento
desnecessário”. É algo muito mais complexo.
Bem-estar animal é geralmente definido como um conjunto de conceitos que incluem:
estados naturais, mentais e físicos; as cinco liberdades; necessidades e senciência. Cada
conceito será desenvolvido posteriormente nesta seção.
Estados naturais, mentais e físicos
Avaliar o bem-estar de um animal significa olhar sua saúde física (o quão em forma ele
está), sua saúde mental (incluindo como ele se sente) e sua capacidade de agir
naturalmente (referida neste capítulo como “telos”). O bem-estar de um animal pode ser
descrito como bom se ele estiver em forma, saudável e livre de sofrimento.
Um animal pode ter um problema físico como, por exemplo, um tumor e não ser afetado
mentalmente, caso não sinta dor ou desconforto. Da mesma forma, um animal pode sentir
medo e ansiedade, sem que isso esteja associado a um problema físico. Assim, uma
condição pode afetar o estado mental ou físico de um animal, ou ambos.
O terceiro estado – telos – refere-se à habilidade do animal de satisfazer suas necessidades
e seus desejos naturais. Por exemplo, em seu ambiente natural, um porco passaria 70% de
seu tempo cavoucando ou com outros comportamentos orais. Ele estaria também envolvido
em interações sociais complexas. No entanto, porcos, quando confinados em minúsculas
baias individuais para criação intensiva, não conseguem exibir seus comportamentos
naturais. A frustração de suas necessidades naturais leva a comportamentos repetitivos nãonaturais, conhecidos como estereótipos – como morder grades ou barras.
Esses três conceitos são freqüentemente usados para definir bem-estar animal, seja
individualmente ou combinados.
Definições tradicionais atêm-se mais ao estado físico dos animais: “Bem-estar define o
estado de um animal em relação a suas tentativas de se relacionar com seu ambiente”
(Fraser & Boom,1990).
Duncan defende que sentimentos (o estado mental) são críticos e que não são
necessariamente relacionados à saúde ou à boa forma: ”...nem saúde, nem falta de estresse
é necessário e/ou suficiente para se concluir que um animal goza de bem-estar. Bem-estar
depende daquilo que os animais sentem”.
Rollin (1993) reconhece que os dois estados mentais (dor e sofrimento) e o telos são
relevantes para o bem-estar. “Bem-estar significa não só controle da dor e do sofrimento,
mas também a satisfação e a realização da natureza do animal, o que eu chamo de telos“.

Qualquer que seja a definição usada, está claro que os três conceitos estão interligados e
qualquer comprometimento em um tende a afetar os outros dois.
As Cinco Liberdades
Um outro conceito popular para quantificar o bem-estar animal é a ótica das “cinco
liberdades”, uma abordagem holística que leva em consideração os três conceitos descritos
anteriormente.
As “cinco liberdades” foram originalmente desenvolvidas pelo Conselho do Bem-Estar de
Animais de Produção do Reino Unido (Farm Animal Welfare Council – FAWC) e oferecem
valiosa orientação para o bem-estar animal. Elas são internacionalmente reconhecidas e
foram ligeiramente adaptadas desde a sua formulação. A forma atual diz que os animais
têm de estar:
• Livres de fome e sede e com pronto acesso à água fresca e a uma dieta que os mantenha
saudáveis e vigorosos.
• Livres de desconfortos e vivendo em um ambiente apropriado que inclui abrigo e uma
área confortável para descanso.
• Livres de dor, ferimentos e doenças por meio de prevenção ou de rápido diagnóstico e
tratamento.
• Livres para expressar comportamento normal, uma vez que lhes sejam garantidos:
espaço suficiente, condições de moradia apropriadas e a companhia de outros animais de
sua espécie.
• Livres de medos e angústias e com a garantia de condições e tratamento que evitam
sofrimentos mentais.
Os itens acima fazem parte de lista que serve para identificar situações que comprometem o
bem-estar animal; isto é, qualquer situação que cause medo, dor, desconforto, ferimento,
doença ou angústias comportamentais.
Necessidades
Definidas como “exigências fundamentais da biologia do animal para se obter recursos ou
respostas particulares a um estímulo corporal ou ambiental específico” (Broom & Johnson,
1993), as necessidades devem ser atendidas para garantir o bem-estar do animal.
Elas podem incluir uma variedade de suprimentos, como alimento, água, conforto,
melhorias ambientais e prevenção de doenças infecciosas. De acordo com sua relativa
importância, podem ser classificadas como:
• Necessidades para manutenção da vida: devem ser atendidas para garantir a
sobrevivência do animal.
• Necessidades para manutenção da saúde: prevenção e ausência de doenças
e ferimentos.
• Necessidades para manutenção de conforto: contribuem para a qualidade de vida
(Humik & Lehmen, 1985).
Todas essas necessidades devem ser atendidas para garantir o bem-estar animal.
Senciência
Senciência signfica que os animais:
• Têm consciência do ambiente ao seu redor.

• Têm dimensão emocional.
• Têm consciência do que está acontecendo com eles.
• Têm capacidade de aprender por experiência.
• Têm consciência de sensações corporais: dor, fome, calor, frio etc.
• Têm consciência de suas relações com outros animais.
• Têm capacidade de escolher entre diferentes animais, objetos e situações.
Já existe amplo reconhecimento da senciência dos animais, o que reforça ainda mais a
necessidade de que se proteja seu bem-estar. A União Européia reconhece animais como
”seres sencientes” desde a inclusão de um protocolo sobre bem-estar animal no Tratado de
Amsterdam, assinado em 1997.
Ciência, ética e lei
A ciência do bem-estar animal analisa os efeitos dos humanos nos animais a partir da
perspectiva destes últimos. Evidências científicas são freqüentemente usadas como base
para reformas na legislação sobre o tema e têm sido instrumentos para numerosas
mudanças para animais de produção, animais de pesquisa e animais de zoológico. A ciência
não é o único critério para julgamento do bem-estar, uma vez que outros fatores menos
tangíveis também estão envolvidos.
A ética analisa a moralidade das ações humanas em relação aos animais: como os
humanos atualmente os tratam e como deveriam tratá-los.
A legislação analisa como nós devemos tratar os animais; é uma reflexão das regras da
sociedade para o uso e o tratamento dos animais. Pode-se dizer que a lei é simplesmente a
aplicação prática do estado atual da ciência e da ética em uma sociedade, como aceita por
consumidores e políticos.

CONCEITOS BÁSICOS DE BEM-ESTAR ANIMAL
Websites
The American Institute for Animal Science (Instituto Americano para Ciência Animal)
www.worldofanimalscience.com/
Animal Behavior Society (Sociedade de Comportamento Animal)
www.animalbehavior.org/
Cambridge E-learning Institute (CEI)
www.animal-info.net/edu.htm
CEI oferece um curso on-line em bem-estar animal. Com nível de pós-graduação, o curso
introduz os principais conceitos da ciência do bem-estar animal por meio de discussões online entre alunos e tutores.
The Institute for Animals and Society (Instituto para Animais e Sociedade)
www.animalsandsociety.org/
É uma instituição que promove educação e treinamento, incluindo um curso em “Animais e
Sociedade”, e que analisa o status legal e moral dos animais na sociedade contemporânea.

International Society for Applied Ethology (Sociedade Internacional para Etologia Aplicada)
www.applied-ethology.org/
Fundação Latham
www.latham.org
UC Davis Questions about Animal Welfare (Perguntas de UC Davis sobre bem-estar
animal)
www.vetmed.ucdavis.edu/vetext/FAQ-AN.HTML
Livros
Animal Thinking (Pensamento animal)
D. R. Griffin
Editora: Harvard University Press
ISBN: 978-0674037137
Animal Welfare (Bem-estar animal)
Michael C. Appleby e Barry O. Hughes
Editora: CAB International
ISBN: 978-0851991801
Animal Welfare (Bem-estar animal)
Colin Spedding
Editora: Earthscan
ISBN: 978-1853836725
Animal Welfare: A Cool Eye Towards Eden (Bem-estar animal: Um olhar legal
em direção ao Éden)
John Webster
Editora: Blackwell Science (UK)
ISBN: 978-0632039289
Animal Welfare (Face the Facts) – Bem-estar animal (Encare os fatos)
Bel Browning
Editora: Raintree
ISBN: 978-0739864302
Attitudes to Animals: Views in Animal Welfare (Atitudes em relação aos animais:
Pontos de vista sobre bem-estar animal)
Francine L. Dolins (Editor)
Editora: Cambridge University Press
ISBN: 978-0521479066
Encyclopedia of Animal Rights and Animal Welfare (Enciclopédia dos direitos animais
e bem-estar animal)
M. Bekoff (Editor)
Editora: Greenwood Press
ISBN: 978-0313299773

An Introduction to Animal Behaviour (Uma introdução ao comportamento animal)
A. N. Manning, M. S. Dawkins
Editora: Cambridge University Press
ISBN: 978-0521578912
Stress and Animal Welfare (Estresse e bem-estar animal)
D. M. Broom, K. G. Johnson
Editora: Kluwer Academic Publishers
ISBN: 978-0412395802
The Study of Animal Behaviour (O estudo do comportamento animal)
F. Huntingford
Editora: Kluwer Academic Publishers
ISBN: 978-0412223303
Through Our Eyes Only? (Por meio de nossos olhos apenas?)
M. S. Dawkins
Editora: Oxford University Press
ISBN: 978-0198503200
Unravelling Animal Behaviour (Elucidando o comportamento animal)
M. S. Dawkins
Editora Longman (2ª Edição)
ISBN: 978-0470234280
What Should We Do About Animal Welfare? (O que devemos fazer a respeito do
bem-estar animal?)
M. C. Appleby
Editora: Blackwell Science Inc.
ISBN: 978-0632050666
Conceitos em bem-estar animal – WSPA
Um conteúdo programático para auxiliar no ensino do bem-estar animal em faculdades de
Veterinária (2003)





Abate Clandestino. Até Quando ?

Abate Clandestino. Até Quando ?
O Brasil possui situação privilegiada no cenário da bovinocultura, sendo detentor do maior rebanho comercial do mundo e ainda ocupando a posição de maior destaque internacional: maior exportador de carne bovina do mundo. Contudo, confrontando essa posição grandiosa, nos deparamos com um grave problema crônico, que vem se estendendo há décadas: o abate clandestino de bovinos. A clandestinidade é definida por duas condições básicas: a não fiscalização pelo serviço de inspeção sanitária e a sonegação fiscal, condições essas que muitas vezes ocorrem simultaneamente, ou seja, abate clandestino é aquele que ocorre sem nenhuma inspeção sanitária e sem pagamento de impostos.

Estima-se que aproximadamente 50% da carne bovina consumida no mercado nacional seja proveniente desse abate, sendo que a literatura apresenta números que variam de 45 até 60%. As principais causas do abate clandestino estão diretamente ligadas à disponibilidade local de grupos de animais (geralmente animais de descarte), sonegação de taxas e impostos, pequeno investimento em instalações e baixo custo operacional, deficiência no sistema de fiscalização (número reduzido de profissionais – médicos-veterinários e técnicos), facilidade de colocação do produto no comércio varejista local, desinformação do consumidor, falta de punição aos infratores e ao poder sócio-econômico e político da cadeia da carne.

A conseqüência mais grave do abate clandestino é a exposição da população aos riscos de doenças, muitas delas graves, como a neurocisticercose, responsável pela morte de 50.000 pessoas por ano em todo o mundo, segundo dados da Organização Mundial de Saúde. Uma vez que os animais não são inspecionados, suas carcaças são destinadas diretamente ao aproveitamento e consumo humano, sendo que aí se encontra um dos ganhos do abate clandestino: carcaças que seriam descartadas ou condenadas por riscos sanitários são aproveitadas.

O controle oficial, sanitário e tecnológico dos produtos de origem animal no Brasil não é uma atividade nova: ele foi objeto de regulamentação, pela primeira vez, nos idos de 1915 e em 1950 a Lei 1.280 e o RIISPOA (Regulamento da Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal), que fixavam a obrigatoriedade do exercício da inspeção industrial e sanitária de produtos de origem animal, a cargo dos governos Federal, Estadual e Municipal. Ao governo federal cabia o comércio interestadual e internacional; ao governo estadual cabia o comércio intermunicipal e o comércio municipal cabia às prefeituras municipais. O Sistema de Inspeção Sanitária - que, por meio da Lei 5.760/71, esteve sob o total controle Federal - era caracterizado como um sistema burocrático, porém até certo ponto eficiente. Quando da elaboração da Lei 7.889/89, em 1989, o sistema foi desmembrado em três níveis de atuação, o que implicou a transferência do controle para outras esferas de poder e, por conseqüência, alterou sua confiabilidade. Assim, o Sistema de Inspeção Federal (SIF) foi mantido para a fiscalização de carnes comercializadas em todo o território nacional e aquelas destinadas à exportação, sendo criado o Sistema de Inspeção Estadual, priorizando a comercialização de carnes no âmbito Estadual, e o Sistema Municipal (SIM), que autoriza o controle da inspeção sanitária por parte dos municípios.

O sistema de inspeção Estadual está mais vinculado a abatedouros de menor porte, principalmente devido à menor burocracia e custos de manutenção quando comparado com o SIF. Com relação ao sistema de inspeção Municipal (SIM), este é diretamente condicionado às práticas políticas locais, sendo portanto difícil uma conclusão precisa em termos de sua atuação na fiscalização de carnes. Entretanto, essas três esferas de inspeção atuam com diferentes níveis de exigência quanto aos critérios higiênico-sanitários adotados, de maneira que os estabelecimentos sob inspeção municipal tendem a ter estreita relação com abate clandestino. De outro lado, a fiscalização, mesmo que deficiente, ocorre em frigoríficos registrados.

Parte relevante do fluxo da carne clandestina percorre um caminho absolutamente distinto, iniciando-se em um ponto de abate não registrado ('frigomato'), passando diretamente aos açougues, em especial nos bairros mais pobres. A vigilância sanitária, por sua vez, que seria responsável pela fiscalização da carne já no ponto de venda, não é capaz de avaliar problemas que levariam à condenação da carcaça no momento do abate. Os bovinos estão sujeitos a uma série de patologias, muitas delas graves, e em grande número transmissíveis ao homem pela ingestão ou manuseio das carnes e de outras partes do animal, as chamadas zoonoses, que são em número superior a 150.

Doenças e afecções, apenas para citar as mais comuns, como a cisticercose e a tuberculose, carnes tóxicas e repugnantes, carnes responsáveis por toxiinfecções alimentares, bem como diversas outras comumente encontradas na rotina da inspeção sanitária dos estabelecimentos de abate brasileiros, sob Inspeção Federal, respondem pelas consideráveis rejeições de animais abatidos na referida inspeção. Tais doenças só podem ser devidamente identificadas mediante a inspeção ante mortem e post mortem às quais os animais são submetidos no matadouro. A inspeção ante mortem ocorre na chegada dos animais ao estabelecimento e imediatamente antes do abate.

Já a inspeção post mortem é aquela que ocorre no decorrer das operações do abate do animal na sala de matança, quando são minuciosamente examinadas e inspecionadas víscera por víscera, órgão por órgão e carcaça por carcaça. Apenas diante dos resultados constatados nesses exames, realizados por equipes especializadas de médicos-veterinários e auxiliares técnicos oficiais, é que se tem a oportunidade, por meio de sinais ditos patognomônicos e lesões ou achados, de estabelecer-se um diagnóstico preciso e julgamento adequado de cada caso, dando-lhe o devido destino (descarte, aproveitamento para consumo humano, aproveitamento para fins não comestíveis, etc.).

Quando esses exames não são realizados durante o processamento industrial da carne, como nos casos de abate clandestino, muitas daquelas doenças e afecções podem chegar até o consumidor, sem oferecer sequer alguma suspeita de anormalidade. Os custos derivados do abate clandestino ultrapassam o não recolhimento de impostos e concorrência predatória sobre as empresas que operam legalmente, se refletindo em custos diretos aos sistemas de saúde e indiretos à capacidade de trabalho. A redução tributária enfrenta um limite claro dado pela característica do produto.

A informalidade representa não somente um ganho fiscal, mas sobretudo um ganho derivado do aproveitamento de carcaças que seriam descartadas por riscos sanitários ou falta de padrão. Portanto, mesmo que haja isenção de impostos, ainda assim a informalidade da carne bovina proporciona ganhos. Para coordenar-se de modo eficiente, o mercado informal assenta-se em estruturas de governança particulares, como a integração vertical entre abate e distribuição e a relação de confiança estabelecida entre açougueiro e consumidor. Finalmente, cabe dizer que a informalidade não é um fenômeno de causa única, mas é o resultado da conjunção de diversos elementos do ambiente institucional e competitivo, que se somam ao conferir maiores vantagens ao abate clandestino.

A elevada sensibilidade em relação a preços nos estratos de renda inferior, assim como o amparo de costumes e tradições ao comércio informal de carne, constituem fortes fundamentos para a continuidade do abate clandestino. Políticas públicas voltadas à redução dos custos derivados da clandestinidade - como arrecadação fiscal e segurança do alimento - devem, portanto, contemplar esses elementos para que haja uma redução mais efetiva do abate clandestino.

Principais Referências
FURQUIM A. Na clandestinidade: o mercado informal de carne bovina. In: www.fearp.usp.br/egna/resumos/azevedofurquim.pdf REIS, D. O., ALMEIDA, L. P., PIMENTA, A., VIEIRA, R. L. Zoonoses reemergentes: um estudo com bovinos abatidos em frigorífico da região Sudeste do Brasil. Revista Higiene Alimenta, v. 15, n. 82, p. 23-26,2001 REIS, D. O., ALVES, F., COELHO, H. E. Importância do exame histopatológico para diagnóstico pós morte de bovinos abatidos em frigorífico de Uberlândia, MG, 1987-1997. Revista Higiene Alimentar, v.11, n. 78-79, p. 23-27, 2000.



Publicado em 22/03/2004 por Lara Macedo Bonfim, médica veterinária, professora do curso de veterinária da PUC - Betim em http://www.rehagro.com.br/siterehagro/publicacao.do?cdnoticia=523